quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

A "praga"


Entramos numa sala de cinema, pequena ou grande, pouco importa, e ficamos logo enjoados pelo nauseabundo cheiro.
No chão, a caminho do nosso bem pago lugar, não raro encontramos vestígios mortais.
A praga!
Pipocas!
Com ou sem sal, com ou sem açúcar, em pacotes pequenos, médios ou grandes, consoante o maior ou menor devorador apetite de quem pensa que vai a um restaurante e não a um cinema…
E como aquilo “embatuca”, faz-se acompanhar de uma pequena, média ou grande quantidade de cola, para ajudar à digestão.
O ruído da mastigação passa quase despercebido se o filme for uma comédia, e é tremendo se o “suspense” imperar. Imperar…é um modo de dizer, pois os ruminantes espectadores, que depois limpam as mãos gordurosas às próprias cadeiras, não deixam.
Até quando??

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

O nosso fado


Carlos Saura, realizador espanhol que levou até às telas o tango e o flamenco, prepara-se agora para transportar o português fado aos mesmos níveis de divulgação.
Evidentemente que as expressões musicais são universais, embora tenham a sua origem específica, a qual não convém escamotear.
Se a dança típica espanhola está no sangue de Saura, é naturalíssimo, e compreende-se mesmo que o tango argentino lhe pulse nas veias.
Fado é uma surpresa.
A proposta foi-lhe feita por um produtor português, Ivan Dias (?) e o realizador aceitou.
Percebe-se a intenção primária do produtor, querendo aproveitar a experiência ganha com outros filmes sobre música tradicional, mas já não se aceita tão bem que não se tenha pensado num realizador português para rodar o filme. Porque ninguém imagina um produtor espanhol a convidar um português para realizar uma obra sobre dança com castanholas…
E Saura não terá começado muito bem…ao convidar Caetano Veloso para participar no filme, cantando “Estranha Forma de Vida”. Por muito grande que seja Caetano, um brasileiro a cantar Amália…deixa dúvidas, para mais num projecto que pretende retratar a canção portuguesa.
Sabe-se que Mariza entrará no rol de fadistas, e provavelmente Carlos do Carmo e Camané.
Louva-se o projecto, mas desconfia-se do resultado…

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Jack Nicholson


A sua expressão facial, sério, a rir, a chorar, de qualquer maneira, é de louco.
Nos inúmeros papéis que representou, que vão do cómico ao mais puro terror, nunca essa “loucura” deixou de estar presente. Talvez tenha sido exactamente essa, a par de um enorme talento, a característica que o celebrizou e eternizou na história do Cinema.
Há mais de 40 anos que anda nas telas de todo o mundo, encantando, levando à meditação, arrancando gargalhadas espontâneas, fazendo vibrar as plateias com o seu olhar felino, os seus traços histriónicos difíceis de esquecer, os esgares, a postura de grande actor.
Ainda hoje considero “Voando Sobre um Ninho de Cucos”, 1975, de Milos Forman, o melhor filme, o que não é pouco, se pensar que já vi…milhares, sem exagero. E lá está, Nicholson no seu “ambiente”…a loucura, ele que entrou são no hospital/prisão e que acaba louco, ainda que não por sua vontade. Extraordinária interpretação, num filme de sempre.
Mas…e depois, quantos sucessos inesquecíveis? Apenas para citar alguns, aqui recordo “The Shining” de Stanley Kubrick, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, “Laços de Ternura”, “As Bruxas de Eastwick”, “Melhor é Impossível” e “About Schmidt”, para não falar aos anteriores a 75 como “Chinatown” ou “Easy Rider”.
È claro que a sua vida pessoal tem sido uma “loucura” completa, como não podia deixar de ser…
Alguém o classificou recentemente como “O maior actor vivo”.
Não sei se é o maior. Mas está seguramente no galarim dos grandes candidatos a tal.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Ennio Morricone



Quem gosta de cinema, conhece muitos actores, alguns realizadores, um ou dois produtores. E se perguntarmos a este público para indicar dois ou três nomes de compositores musicais para cinema, apostamos que na esmagadora maioria das respostas apareceria Ennio Morricone.
É impressionante o número de filmes que este senhor musicou. Nada mais, nada menos do que cerca de 400!
“Talvez organize o meu tempo melhor do que outras pessoas”, respondeu uma vez quando questionado como arranjava tempo para tanta actividade, pois além de compor para cinema, é também autor de inúmeras peças, cantatas e orquestrações. E acrescentou: “Diz que eu faço muita música. Bem, se me pudesse comparar com Bach ou Mozart, diria que eu era um desempregado!”
Morricone não compõe ao piano ou no computador. Escreve e a lápis.
O pai tocava em orquestras de ópera e clubes de jazz, e Ennio cresceu a tocar trompete, instrumento que aprendeu no célebre Conservatório de Santa Cecília em Roma. Daí não admirar a mescla de estilos musicais que compôs ao longo da sua já extensa vida.
Como escolhe os filmes em que quer participar? Simples:
“Às vezes leio o guião, outras apenas a parte principal da história e já aconteceu muitas vezes ver o filme pronto e depois musicá-lo”. É fácil…apenas para ele.
“A Missão”, “Era Uma Vez na América”, “1900”, “Cinema Paraíso”, “Aconteceu no Oeste” são apenas alguns dos enormes sucessos de Ennio Morricone.
A quem a Academia de Hollywood, talvez atrasada, prestará homenagem na próxima entrega dos Oscares, entregando-lhe um Prémio de Carreira que o músico italiano tanto merece. Ele que foi nomeado muitas vezes, mas nunca ganhou nenhuma daquelas estatuetas.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

John Ford


John Ford.
Nome simples de alguém com muito mau feitio, carrancudo, mas genial.
Quando falamos em “westerns”, lembramos de imediato John Wayne, aquele “monstro sagrado” que fez as delícias da nossa juventude, arrasando os “maus” e impondo a justiça. E logo a seguir lembramos o realizador de tantos desses filmes, John Ford, que tinha em Wayne o seu actor de eleição, ainda que Henry Fonda e John Carradine também estivessem sempre muito ligados ao Mestre.
Em tempo de Óscares, é bom lembrar que, ainda hoje, Ford detém o maior número de galardões alguma vez alcançado por um realizador. Nada menos de 4. E o que é mais curioso, é que nenhum deles premiou uma fita de “cowboys”. Incrível, não é?
Ganhou-os com “O Informador” (The Informer), “As Vinhas da Ira” (The Grapes of Wrath), “O Vale era Verde” (How Green Was My Valley), e “Depois do Vendaval” (The Long Voyage Home).
A pala negra que o caracterizava nos últimos anos da sua vida, e que lhe tapava o olho esquerdo, foi resultado do “bom feitio” de Ford, que aquando de uma operação às cataratas não seguiu os conselhos do médico e retirou o penso à revelia deste.
Como resultado cegou desse lado.
Numa outra ocasião, quando em conferência de Imprensa o então repórter Jean-Luc Godard, a trabalhar para os “Cahiers du Cinema”, lhe perguntou “Como veio para Hollywood”, limitou-se a secamente responder “De comboio!”, deixando perplexo o futuro grande realizador francês.
Enfim, um génio temperamental, com lugar reservado no estrelato universal do Cinema.

sábado, 27 de janeiro de 2007

L' Aventure...


Um grupo de assaltantes de bancos entende que o seu “ofício” já não é suficientemente lucrativo, e decide mudar de “ramo”, optando por raptar celebridades.
Só que este grupo tem uma característica especial: os seus cinco componentes são completamente idiotas, a roçar a acefalia.
É claro que os actores escolhidos não podiam ser melhores para o efeito: Lino Ventura, Jacques Brel, Charles Denner, Charles Gerard e Aldo Maccione.
É verdade, Brel, que não deixa os seus créditos como actor por mãos alheias, demonstrando que o seu talento não se resumia às suas célebres canções.
Interpretações portentosas de todos eles.
Claude Lelouch realizou, em 1972.
O filme é um festival permanente de boa disposição e gargalhada.
Lembro-me bem de o ter visto, pela primeira vez, no cinema “Mundial”, e não sei como as cadeiras resistiram, tantos os saltos que os espectadores davam, incapazes de controlar o riso. Já perdi a conta às vezes em que o revi.
Recomendo vivamente, até porque existe em DVD.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

António Silva



”O português que se desenrasca, meio aldrabão, cheio de bazófias”, assim se refere Vítor Pavão dos Santos ao grande António Silva.
Nunca vi descrição tão correcta.
As personagens pitorescas que magistralmente interpretou, e que perduram na nossa memória colectiva, caracterizavam-se por essa tão portuguesa tendência para o facilitismo exagerado, o “deixa andar”, o “tudo se resolverá”.
É claro que com um talento enorme, que assumia o expoente mais elevado na maneira como gesticulava as mãos, absolutamente ímpar no nosso cinema.
António Silva veio do nada, na adolescência foi marçano, empregado de uma retrosaria, caixeiro de uma drogaria, bombeiro. Trabalhava e estudava, tirando o Curso Comercial que para nada lhe serviu, já que o Espectáculo era a sua paixão.
A primeira ligação ao cinema surge quando integra o grupo “Fitas Faladas”, que dobrava filmes mudos no Salão Ideal, na rua do Loreto, bem perto do Largo de Camões.
Aparece pela primeira vez no teatro em 1910, na Companhia dirigida por Alves da Costa, no Teatro da Rua dos Condes, com a peça “O Novo Cristo” de Tolstoi, e a partir daí, não mais parou, até se reformar já nos anos 60.
Ninguém esquecerá o alfaiate “Caetano” da “Canção de Lisboa”, o “Evaristo” do “Pátio das Cantigas”, o “Simplício” do “Costa do Castelo”, e muitos outros que uma série de gerações aclama, décadas passadas, como se os filmes tivessem acabado de se estrear.
É a primeira figura do cinema português que aqui coloco.
E não podia ser outra.

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